A Nova Zelândia retomou todas as atividades nesta terça-feira (9) após informar que não tem mais nenhum caso de infecção pelo novo coronavírus. O país implementou medidas de restrição das mais rigorosas do mundo e teve a gestão da primeira-ministra Jacinda Ardern em relação à crise elogiada internacionalmente.

O país entrou em "emergência nacional" no dia 25 de março, quando tinha apenas 50 pessoas infectadas pelo novo coronavírus - a primeira morte foi registrada dia 29 do mesmo mês. Com isso, houve um avanço para o nível 4 do plano de contingência.

Na prática, a saída de casa só era permitida para comprar comida ou remédio e se exercitar perto da residência. O contato com outras pessoas era liberado apenas no círculo doméstico. Trabalhadores de serviços essenciais eram os únicos que podiam estar nas ruas.

Além disso, em 15 de março já havia sido imposta a quarentena para todos que voltavam de viagens do exterior e, quatro dias depois, a nação fechou suas fronteiras.

No Brasil, a mesma decisão só foi tomada no dia 27 de março, quando já havia 3.417 casos e 92 pessoas mortas pela covid-19. Além disso, os decretos de quarentena foram implantados por estados e municípios, não pelo governo federal.

No caso do estado de São Paulo, até então epicentro da doença no Brasil, o anúncio da quarentena foi feito no dia 21 de março, quando já havia 15 mortos por covid-19 e 396 casos confirmados de infecção pelo novo coronavírus. O decreto, no entanto, só passou a valer três dias depois.

Especialistas divergem ao analisar se seria possível seguir o exemplo da Nova Zelândia em todo o território nacional. Gonzalo Vecina, professor do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP, considera que isso é impossível.

Dentre os fatores que são obstáculos, estão a desigualdade social, o nível educacional e o tamanho da população. O Brasil tem 211 milhões de habitantes e a Nova Zelândia, 4,8 milhões.

"Seria uma maravilha adotar as mesmas medidas, só não tem condição. Lá tem 4 milhões de habitantes e uma renda per capita muito maior. Além disso, lá é uma ilha, então você consegue fazer um isolamento social bastante eficaz", pondera Vecina.

O especialista chama atenção para a grande quantidade da população que vive em condições precárias de habitação no Brasil. São 13,6 milhões de pessoas morando em favelas, segundo pesquisa do Instituto Locomotiva/Data Favela divulgada em março deste ano.

"Existem alguns municípios mais ricos que até têm menos desigualdade e sem favelas, mas fechar a cidade para fazer lockdown como a Nova Zelândia fez, eu acho muito difícil", afirma.

A infectologista da Unicamp e consultora da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) Raquel Stucchi afirma, por sua vez, que era possível para o Brasil seguir o exemplo neozelandês no início das infecções, apesar das diferenças territoriais e demográficas entre os dois países.

"Seria viável seguir o exemplo da Nova Zelândia, mas agora já não é mais. A gente tem realidades diferentes, mas a filosofia mestra deveria ser: precisamos fazer isolamento", afirma a infectologista.

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Stucchi destaca que além das medidas de restrição mais rigorosas, outros dois fatores contribuíram para o êxito da Nova Zelândia no controle da disseminação do novo coronavírus: testagem em massa e ter uma orientação única para seguir.

"É uma única voz no comando do país, que ouve a ciência. Ela falando e todos obedecendo. Claro que lá o território e a população são muito menores, mas isso faz diferença", pondera. "O que aconteceu aqui é que cada um falou uma coisa, então cada pessoa seguiu o que era melhor para si", compara.

"Ela [Jacinda] testou todo mundo e isolou os casos confirmados. Enquanto não houver vacina, esse é o único jeito de controlar a doença", acrescenta.

A infectologista ainda ressalta que a Nova Zelândia aplicou na população o teste RT-PCR. Ele é considerado "padrão ouro", pois detecta a presença do genoma do novo coronavírus, o que significa informar se a pessoa tem uma infecção ativa.

"É preciso fazer [os testes] e repeti-los com uma certa frequência", explica. De acordo com a médica, se o resultado for positivo, é necessário fazer o "rastreamento de contato": ir atrás de pessoas próximas e familiares para monitorá-los.

Stucchi cita Florianópolis, capital de Santa Catarina, como um exemplo de cidade que adotou medidas parecidas com a Nova Zelândia. "O prefeito já previu [as consequências da pandemia] e comprou testes antecipadamente, além de adotar o isolamento social desde o início, porque viu que era isso que funcionava".

O professor da USP pondera que é essencial haver ações do governo federal para lidar com a crise gerada pelo novo coronavírus. "É preciso ter uma política federal de enfrentamento e de proteção social".

Ele acrescenta que 40% da população brasileira tem trabalhos informais, o que as deixa mais vulneráveis. "A única maneira de garantir o que comer é sair para trabalhar", afirma. "O auxílio emergencial não está sendo suficiente, as regras e a burocracia dificultam o acesso a ele", completa.

Stucchi lembra que cada um é responsável por sua saúde e também pode interferir na do outro. "Apesar da flexibilização, só saia de casa se for estritamente necessário", aconselha.


Via: G1