Turbulência à vista entre Brasil e Argentina

Turbulência à vista entre Brasil e Argentina

13 de agosto de 2019 Off Por Rodrigo

Derrota de Macri em prévias antecipam cenário eleitoral em outubro e relações bilaterais e conturbadas com possível retorno de chapa kirchnerista ao poder.

Nem no pior pesadelo, o presidente Mauricio Macri previu a terra arrasada em que se transformou seu governo após a derrota, por uma margem de 15 pontos, para a dupla Alberto Fernández-Cristina Kirchner nas primárias argentinas. Se o ensaio de domingo fosse para valer em outubro, o kirchnerismo estaria de volta ao poder no primeiro turno.

Ficou bastante complicado para Macri reverter esse cenário nas dez semanas que restam até o pleito definitivo. Com o possível retorno de um governo kirchnerista à Argentina, o horizonte regional apresenta-se nebuloso, na melhor das hipóteses.

A começar pelas relações bilaterais que se vislumbram turbulentas por governos com visões diametralmente opostas. Do lado de cá, o presidente Jair Bolsonaro encampou a reeleição de Macri como cabo eleitoral e compara o futuro argentino, com Cristina à frente, embora como vice, ao da Venezuela.

Mauricio Macri durante seu pronunciamento após a divulgação dos resultados das primárias — Foto: Luisa Gonzalez/Reuters
Mauricio Macri durante seu pronunciamento após a divulgação dos resultados das primárias — Foto: Luisa Gonzalez/Reuters

“Se essa esquerdalha voltar aqui na Argentina, nós poderemos ter, sim, no Rio Grande do Sul, um novo estado de Roraima. E não queremos isso: irmãos argentinos fugindo pra cá, tendo em vista o que de ruim parece que deve se concretizar por lá caso essas eleições realizadas ontem se confirmem agora no mês de outubro”, previu Bolsonaro em Pelotas na manhã de segunda-feira.

Do lado de lá, a recíproca é verdadeira. Nada mais simbólico para ilustrar o desapreço a Bolsonaro do que a visita de Alberto Fernández ao ex-presidente Lula na prisão, em Curitiba.

Dois governos alinhados, como os de Bolsonaro e Macri, aceleraram, nos últimos meses, negociações que estavam paralisadas, como a redução de tarifas de importação, a atuação mais vigorosa do agronegócio e a integração da região no cenário externo. Costuraram o acordo entre Mercosul e União Europeia, atravancado em 20 anos de resistências protecionistas de governos anteriores.

Dependendo do resultado em 27 de outubro, é grande o risco de um retrocesso nas conversas entre sul-americanos e europeus. Fernández já antecipou que, se eleito, o pacto será revisto, por considerar que seu anúncio foi prematuro e atendeu aos interesses eleitorais do atual presidente.

Ex-embaixador na Argentina e Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e vice-presidente emérito do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, José Botafogo Gonçalves alerta para um descompasso indesejável entre os dois países.

“Existe a ideia de que a economia argentina só tem a ganhar se estiver entrosada com o governo brasileiro”, atesta.

A vitória da chapa kirchnerista, tradicionalmente protecionista, isolaria também o país em relação aos vizinhos, já que Brasil, Chile, Paraguai e Colômbia praticam políticas liberais semelhantes, observa o embaixador Botafogo Gonçalves. Sobraria a Venezuela, em colapso político e econômico e atualmente um aliado pouco eficaz para a Argentina. Mais do que nunca, o pragmatismo se fará necessário.

Via G1